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O que aprendi (e apreendi) no Encontro de Editores, Distribuidores, Livreiros e Gráficos

27 ago 2025 | Blog, Mercado

Texto escrito por Claudia Machado, gerente de Marketing da Catavento

Para estar em um evento como o Encontro de Editores, Distribuidores, Livreiros e Gráficos é preciso fazer uma curadoria da curadoria. Explico: os curadores pensam em uma programação que precise atender aos diversos públicos presentes no Encontro. Filtrar nesse universo aquilo que interessa pessoal e profissionalmente a cada um é uma segunda camada de curadoria.

Estive na quarta edição do evento, que aconteceu na semana passada, no Guarujá. Estive atenta aos diversos temas que chamaram a minha atenção e anotei tudo. Sofri bullying de alguns colegas que me chamaram de CDF, caso do editor Daniel Pinsky. Levo isso com bom humor, claro…

Mas aqui, compartilho com os leitores do Happy Hour Nespe alguns destaques da programação.

Não por acaso, o primeiro tema que destaco é justamente o da curadoria. Maria Carolina Borin, livreira que agora se envereda pelas políticas públicas do livro, tratou do tema. Ela defendeu que curadoria de uma livraria não se resume à seleção de títulos. Vai além. É preciso estar atento à forma como esses livros são apresentados: é preciso criar um caminho de descoberta para o público e ter um livreiro que o ajude a contar essa história.

Indo por este mesmo caminho, me interessei muito pela mesa “Decodificando os dados: o que os números dizem e o que poderemos fazer com eles”, que reuniu Daniel Rodrigues, sócio-diretor na Livraria Leitura, e Nelson Naspitz, diretor de Operações na Editora Sextante, com mediação de Mariana Brandão, executiva de vendas da Ediouro.

A mesa trouxe um case emblemático da Leitura: ao reduzir SKUs de uma editora de 4 mil para 1 mil, esperavam otimização, mas viram o faturamento cair 30%. Isso reforçou a importância da curva C e da diversidade de catálogo, até títulos que giram lentamente têm valor no conjunto. Curadoria pura!

Outro ponto forte desta mesa foi a revelação sobre a operação do site da varejista: Com 127 lojas físicas funcionando como centros de distribuição, a Leitura consegue um frete rápido e barato para o consumidor que compra pelo e-commerce. Além disso, quase 30% das vendas on-line são de retirada em loja, mostrando como o físico e o digital se complementam.

Nelson Naspitz, Mariana Brandão e Daniel Rodrigues participaram da mesa ‘Decodificando os dados: o que os números dizem e o que poderemos fazer com eles’ | Divulgação

Isso reforça o potencial de um markplace coletivo de livrarias. É algo que temos sonhado há um tempo, já temos tecnologia acessível para isso com a Konekta Tecnologia o que falta para sair do papel? Inclusive um dos destaques da programação foi a entrevista com Andy Hunter da Bookshopp.org, que emplacou uma iniciativa semelhante um pouco antes da pandemia nos EUA.

Em outra mesa, a jornalista Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão, entrevistou a editora Rafaella Machado, da Record, que destacou a força do YA e como a literatura cumpre um papel social em meio à epidemia de solidão entre jovens. A leitura, nesse sentido, não é apenas um hábito individual, mas um caminho de pertencimento a grupos e comunidades.

Isso me fez lembrar que, no último sábado, 23, aconteceu o “Vagon de Lectores” em Buenos Aires, uma ocupação de leitores no metrô de BA convocada pela booktuber Cecilia Bona, lindo de ver e para conhecer, clique aqui.

Por falar em Buenos Aires, vale destacar também duas mesas que tiveram a participação do argentino radicado na Espanha Daniel Benchimol. Ele falou sobre a inteligência artificial, seu impacto, usabilidade e riscos para o setor editorial. O que ficou de alerta para mim é que IA generativas aplicadas nas redes de busca mudaram a lógica de rankeamento das páginas, o que está gerando um fenômeno de indexação de textos para LLMs, inclusive derrubando a audiência em portais de notícias consolidados e tradicionais. E anotei ainda uma dica de segurança: utilizar a aplicação instalada no computador quando for tratar de informações sensíveis e confidenciais.

Outras mesas trataram de uma tendência que leva à máxima segmentação. Mas fico pensando o quanto isso é incentivado pela lógica dos algoritmos… e se uma livraria fizesse o contrário? Um encontro às cegas com a proposta de “Furar a bolha”: se você gosta de ler romance leve, um livro surpresa de ensaio, se você gosta de literatura russa, um romance YA, para citar alguns exemplos. Qual seria o resultado desse choque cultural? Fica a pergunta.

Finalizando as minhas anotações sobre o Encontro, destaco a mesa “Vendas do setor editorial brasileiro: quais as oportunidades que os dados revelam”, com Mariana Bueno, coordenadora de Pesquisas Econômicas e Setoriais da Nielsen BookData, e Jacira Silva, analista de Mercado Sênior da Nielsen BookData. Elas fizeram um trabalho incrível de cruzamento das três pesquisas da Nielsen que cobrem o setor editorial: Panorama do Consumo, Produção e Vendas e Painel do Varejo de Livros no Brasil. Mariana explicou melhor a informação que gerou polêmica recente: de que o mercado encolheu 44% nos últimos vinte anos. Essa queda foi puxada pelo setor de didáticos e CTP. O subsetor de Obras Gerais segue muito bem, obrigado. O que, na minha vivência, faz total sentido, mas quem avisa os jornalistas?

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