Morreu, no fim do ano passado, o britânico Laurence Hallewell, uma das referências mais sólidas no estudo do livro e da edição no Brasil. Ele tinha 96 anos e deixou uma obra que se tornou absolutamente central para o campo.
Hallewell foi um brasilianista no sentido mais rigoroso do termo. Seu interesse pelo Brasil não era episódico nem exótico, mas estruturado, profundo e paciente. Isso se materializou em O livro no Brasil, publicado pela Edusp, um catatau de 810 páginas (ou de 336 na sua edição de “bolso”) indispensável para qualquer pessoa que queira compreender o mercado editorial brasileiro.
Minha relação com essa obra se aprofundou de maneira decisiva quando estava escrevendo 100 nomes da edição no Brasil. Ao optar por contar a história do livro no país a partir de seus editores, eu sabia que estava entrando em um terreno fragmentado, cheio de lacunas, silêncios e apagamentos. O livro de Hallewell funcionou, desde o início, como um mapa confiável. Parafraseando Gil, Hallewell “me deu régua e compasso”.
Foi a partir de O livro no Brasil que consegui entender melhor quem eram muitos dos editores que aparecem no meu livro: de onde vinham, como operavam, que papel desempenharam na formação de um ecossistema editorial.
Como jornalista cobrindo o mercado editorial, passei a monitorar com atenção tudo o que dizia respeito a Hallewell. Sempre me pareceu fundamental saber quando ele era citado, republicado, discutido (ou mesmo esquecido). Por isso, há anos mantenho um Alerta Google com o nome dele, uma forma de vigilância automática.

Foto que tirei quando escrevia ‘100 nomes da edição’, com o onipresente livro de Laurence Hallewell
O curioso (e sintomático) é que, apesar desse alerta permanente, não fui notificado sobre a morte de Hallewell. Soube da notícia por um post do Grupo de Pesquisa em Produção Editorial da Intercom, publicado no Instagram, dias depois de sua morte. A falha do algoritmo diz menos sobre tecnologia e mais sobre como certos nomes fundamentais circulam pouco, mesmo quando moldaram profundamente um campo inteiro de conhecimento.
Quando decidi escrever 100 nomes da edição, meu objetivo era justamente registrar um pouco da memória editorial brasileira, desde seus primórdios. Queria trazer de volta à superfície figuras como Francisco de Paula Brito e Manuel Antonio da Silva Serva, e buscar mais detalhes sobre grandes figurões fascinantes como José Olympio e Alfredo Machado, que ajudaram a revolucionar a nossa indústria editorial.
Nesse sentido, é impossível não perceber uma ironia amarga: Hallewell, que tanto se dedicou a preservar e organizar a memória do livro no Brasil, parece ter estado à beira de sofrer o mesmo processo de apagamento que ele próprio ajudou a combater. O fato de sua morte não ter aparecido no meu Alerta Google é um detalhe pequeno, mas carregado de significado.
Hoje resolvi revisitar O livro no Brasil, como um exercício de memória e de responsabilidade. Com isso, quis lembrar que o livro, enquanto objeto cultural e econômico, carrega uma memória que precisa ser constantemente reativada. Hallewell nos mostrou como fazer isso com seriedade, profundidade e respeito ao campo que estudava. Que tal você também fazer o mesmo?



