No trabalho editorial, “revisão” costuma virar um nome genérico para qualquer intervenção no texto. Na prática, isso embaralha etapas que têm funções diferentes — e desloca decisões importantes para o momento errado do processo.
Preparação de originais e revisão não são sinônimos. Elas acontecem em momentos distintos e lidam com problemas de naturezas diferentes.
Preparação de originais é a etapa em que o texto ainda pode mudar estruturalmente. É ali que se resolvem questões de padronizações editoriais mais profundas, como:
- coerência interna do texto;
- organização de capítulos, seções e hierarquias;
- repetições, lacunas e problemas de progressão.
É também o momento em que decisões editoriais precisam ser discutidas com o editor e, muitas vezes, com o autor. A preparação trabalha com o texto ainda em aberto, antes que ele seja considerado estruturalmente estável.
A Revisão, por outro lado, pressupõe que essas decisões já tenham sido tomadas. Ela atua sobre um texto que deveria estar definido em estrutura, escopo e organização. Seu foco está em:
- correção linguística;
- consistência formal;
- ajustes pontuais de clareza;
- verificação de conformidade com normas previamente estabelecidas.
Quando essas duas etapas se misturam, problemas estruturais chegam à revisão. O revisor tenta resolver o que encontra — não por excesso de zelo, mas porque o texto ainda está instável. A revisão se alonga, o texto muda, novas revisões se tornam necessárias e o processo entra em ciclo de retrabalho.
Uma pergunta simples ajuda a separar as coisas:
este texto ainda pode mudar estruturalmente?
Se a resposta for “sim”, ele ainda está no campo da preparação.
Se a resposta for “não”, então faz sentido revisá-lo.
Essa distinção só funciona, no entanto, quando ela está clara para todos os envolvidos — e isso não acontece por intuição. Cabe ao editor ou gestor editorial definir por escrito o escopo de cada etapa, alinhar expectativas com cada profissional no momento da contratação e explicitar o que se espera — e o que não se espera — de cada intervenção. Na falta de um alinhamento consistente, o profissional trabalha no escuro: tenta antecipar problemas, cobre lacunas do processo e acaba investindo tempo e energia na direção errada.
Prever, desde o início, espaços formais para tirar dúvidas e discutir o texto antes de avançar evita que alguém “resolva demais” sozinho. Mais do que isso, transforma o processo em algo compartilhado, e não reativo — reduzindo retrabalho, desgaste e conflito entre as áreas.
Quando essa separação é respeitada, a revisão deixa de ser o lugar onde tudo se resolve. Ela volta a cumprir sua função técnica específica, e o processo editorial ganha fluidez, previsibilidade e mais segurança para todos os envolvidos.



