No trabalho editorial, projeto gráfico, diagramação e design de capa costumam ser tratados como uma coisa só. Essa confusão não é apenas conceitual — ela afeta orçamento, cronograma, divisão de responsabilidades e a qualidade do resultado final.
Projeto gráfico: definir o sistema antes de aplicar o conteúdo
Projeto gráfico não é a diagramar ou paginar o livro. É a etapa em que se definem critérios que vão orientar toda a execução depois.
O projeto gráfico é o momento de definir como o livro funciona visualmente: grid, hierarquias, tratamento de títulos e intertítulos, relação entre texto e imagem, comportamento de elementos recorrentes (boxes, tabelas, notas, listas), critérios tipográficos e ritmo de leitura.
Essas decisões podem — e normalmente devem — ser testadas no InDesign. Mas não como diagramação do livro inteiro. São testes de modelo, templates e páginas-padrão, feitos para validar o sistema antes da aplicação em larga escala.
Quando esse sistema está claro, a diagramação flui. Quando não está, cada página vira uma exceção.
Diagramação: aplicar decisões já tomadas
Diagramação é a aplicação do projeto gráfico ao conteúdo final. É trabalho de volume, repetição e consistência. Por isso, costuma ser orçada por página diagramada — porque pressupõe que as decisões estruturais já foram tomadas antes.
Quando o projeto gráfico não existe ou está frágil, a diagramação passa a absorver decisões que não são dela. O tempo gasto deixa de ser execução e passa a ser correção estrutural. O problema não é a ferramenta nem o profissional: é o deslocamento de escopo.
Um projeto gráfico bem definido reduz retrabalho, acelera a diagramação e dá previsibilidade de custo e prazo.
Projeto gráfico exige briefing e texto previsível
Para funcionar, o projeto gráfico precisa partir de um briefing coerente e de um texto razoavelmente previsível — não fechado no detalhe, mas conhecido em estrutura.
É necessário saber, por exemplo:
- volume aproximado de texto;
- existência de intertítulos e sua hierarquia;
- presença de boxes, tabelas, listas, imagens;
- variação de elementos ao longo do livro.
Sem essas informações, o projeto corre o risco de ser bonito, mas inutilizável. O problema aparece depois, quando o conteúdo real não cabe no sistema pensado — e o projeto precisa ser refeito ou constantemente adaptado.
Capa e miolo: projetos diferentes, decisões conectadas
Capa e miolo são projetos diferentes, com funções distintas. Mas isso não devem ser desenvolvidos de forma isolada.
Quando designer de capa e de miolo não são a mesma pessoa, é fundamental que trabalhem a partir do mesmo briefing editorial. Conversar, trocar referências e alinhar critérios evita que o livro comunique coisas diferentes por fora e por dentro.
Essa troca não é gentileza nem “extra”: é parte do processo.
Escopo também é decisão técnica
Projeto gráfico, diagramação e capa são etapas diferentes — e devem ser contratadas, orçadas e pagas como tal.
- projeto gráfico é um trabalho de concepção e sistema;
- diagramação é trabalho de aplicação e volume;
- capa é um projeto com lógica própria, mas conectado ao todo.
Quando tudo é tratado como um pacote indistinto, o escopo se dilui, a qualidade cai e o retrabalho vira regra.
O problema não é falta de habilidade nem de ferramenta.
É falta de definição clara do que se decide em cada etapa — e quando.
No processo editorial, clareza de escopo não limita o trabalho do designer. Ela protege o projeto e o profissional.



