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O que eu aprendi sendo curador do palco principal da Bienal do Livro de São Paulo

5 ago 2026 | Blog, Entrevistas e Ensaios

Nesta terça-feira, dia 04, a Bienal do Livro de São Paulo divulgou, em uma coletiva de imprensa, a sua programação para a edição de 2026, que acontece entre os dias 4 e 13 de setembro.

Lá estava eu. Minha terceira Bienal como curador. Comecei em 2022, no Papo de Mercado, auditório pequeno voltado para debater as questões da indústria e do varejo do livro. Na edição seguinte, fui alçado ao Salão de Ideias, palco dedicado aos temas mais urgentes da sociedade.

Neste ano, a Câmara Brasileira do Livro, que realiza a Bienal, me convidou para assumir a programação da Arena Cultural, por onde passam seus maiores destaques.

Quando recebi o convite, a primeira reação foi: “será que dou conta?”. A segunda foi: “se me chamaram, é porque dou conta, sim…” e completei: “meu maior desafio será escolher bons autores e montar mesas interessantes”.

Eu estava enganado.

Descobri rapidamente que programar o principal palco do maior evento literário da América Latina significa lidar menos com livros e muito mais com pessoas, expectativas, responsabilidades e, sobretudo, escolhas difíceis, muito difíceis.

Depois de meses mergulhado nesse trabalho, percebi que algumas lições, que gostaria de compartilhar aqui com vocês aqui.

  1. O leitor é rei

Meu foco esteve o tempo todo no leitor. O que os leitores estão lendo? O que estão comprando? O que estão pedindo nas redes sociais? E aí, passei a visitar listas dos mais vendidos – a da Amazon, a do PublishNews, a de livrarias, a de outros eventos literários, pedi até à Nielsen uma lista dos 100 autores nacionais mais vendidos nos últimos 12 meses.

Olhei também os títulos e autores mais lidos em plataformas, em especial o MEC Livros, uma das grandes novidades do ano.

Também fiquei muito de olho também nas redes sociais, todas elas, o tempo todo, anotando, registrando, me esquecendo e depois me lembrando… Nesse período, minha cabeça virou um nó…

Afiei os ouvidos também. Conversei (muito) com editores e livreiros para entender o que poderia dar certo e o que era só coisa da minha cabeça.

Saberemos em setembro se deu certo, mas… um fato inédito apontou que estava na direção correta: a mais de um mês do início da Bienal, os organizadores tiveram que suspender as vendas de ingressos em um dos dias do evento. No jargão dos profissionais da área: deu sold out. Nunca antes a Bienal precisou suspender a venda de ingressos com tanta antecedência. Ou seja, valeu estar atento ao leitor. Foi um forte indício de que a programação encontrou o seu público.

  1. Os algoritmos mudaram o mercado, mas a curadoria continua sendo humana

Pode parecer contraditório, mas não é. Acabei de falar que os dados foram fundamentais para criar essa programação. Identifiquei quem vende mais livros, quem mobiliza comunidades gigantescas ou quem viraliza nas redes sociais. Sem dúvidas, esses dados foram importantes.

Mas eles não respondem à pergunta fundamental: essa conversa fará sentido dentro da programação como um todo?

Nenhum algoritmo mede a potência de um encontro inesperado. Eles não são capazes de prever a emoção produzida quando trajetórias distintas encontram um ponto comum diante do público.

Há decisões que continuam dependendo de sensibilidade.

  1. Curadoria não é escolher quem participa, mas decidir qual conversa merece subir ao palco

Existe uma tentação natural de imaginar a programação de um evento como uma coleção de grandes nomes.

Mas o público não compra um ingresso para assistir a uma lista de autores. Ele compra a promessa de uma boa conversa.

Ao longo desse processo, aprendi que uma mesa começa pelo tema, não necessariamente pelos convidados. Quando o assunto é forte o suficiente, ele aproxima escritores que talvez nunca tivessem dividido um palco e produz encontros capazes de revelar aspectos inéditos de suas obras.

  1. Representatividade não pode ser um checklist

Diversidade é um valor inegociável em qualquer programação e é um exercício permanente de escuta, pesquisa e responsabilidade.

Diversidade não significa colocar pessoas diferentes na mesma mesa. Significa construir um diálogo que só pode acontecer porque essas pessoas são diferentes.

Entender isso faz toda diferença.

  1. Curadoria também é dizer “não”.

Talvez essa tenha sido a parte mais difícil, a de dizer “não”. Dizer “não” não só para autores, mas para ideias.

Ao longo dos meses surgiram centenas de possibilidades. Algumas excelentes. Outras muito boas. Quase todas defensáveis. Só que uma programação tem limites. Cada mesa aprovada significa que outra deixou de existir. Cada horário ocupado elimina dezenas de alternativas.

Curadoria é, inevitavelmente, um exercício de renúncia. Essa talvez seja o mais difícil desse trabalho.

  1. Nenhuma programação agrada a todos. E isso é um bom sinal

Uma Bienal representa um ecossistema inteiro. Literatura comercial e experimental. Quadrinhos e poesia. Romance, ensaio, fantasia, filosofia, literatura infantil, ciência, religião, educação.

É impossível contemplar todas as expectativas individuais. O objetivo não é construir uma programação perfeita, mas construir uma programação plural.

Se ninguém questionar nenhuma escolha, talvez a programação tenha sido tímida demais.

  1. O palco é apenas a parte visível

Quem assiste a uma mesa não faz ideia da engrenagem imensa que roda por trás. Não tem ideia de quanto tempo foi empregado em negociações anteriores; não faz ideia de quantas pessoas estiveram envolvidas para que aquilo acontecesse ali no palco.

Pessoas! E eu sou muito grato a todos os expositores que me ajudaram a percorrer essa jornada, trazendo indicações, defendendo os seus autores, mostrando por que faziam sentido, alguns até insistindo demais… faz parte do jogo.

Quero agradecer também a minha eterna amiga Cinthia Favilla, que gerenciou o projeto até semana passada e saiu, espero que para brilhar MUITO em outras paragens. A todo o time da CBL, em especial, a Duda, que me aguenta com demandas infinitas e prazos (e orçamento) muitas vezes estourados. Ao Luiz Alvaro, que assume esse timão em meio a uma grande tempestade. Vamos juntos, Alvinho.

E agradecer de forma muito especial ao Everson, meu amigo de todas as horas, que tem feito a minha assistência, lendo nas entrelinhas aquilo de que preciso. Às vezes sucumbindo à minha ansiedade, em outras, dando risadas pelos mesmos motivos. Muito bom ter você comigo nessa, Ciccia.

Que venha a Bienal 2026 e que seja um “Festival de Emoções”.

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