O Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e o Caribe (Cerlalc) acaba de publicar o Panorama da Atividade Editorial na América Latina (2019-2024). O levantamento, realizado por José Diego González Mendoza, revela que o Brasil foi o principal responsável pelo crescimento dos registros de ISBN na Ibero-América no período analisado. Entre 2019 e 2024, o país passou de 103.880 para 213.005 ISBNs, um crescimento de 105%.
Com esse avanço, o Brasil passou a responder por 46,7% dos ISBNs registrados na Ibero-América em 2024 e por 61,9% dos registros da América Latina. O país aparece à frente de Espanha, Argentina, México e Portugal no ranking regional. O relatório chama atenção para o fato de que o crescimento brasileiro não pode ser explicado apenas pela mudança, em 2020, da administração da agência nacional do ISBN para a Câmara Brasileira do Livro (CBL).
O levantamento aponta que a expansão ocorreu entre diferentes tipos de agentes editores, mas foi especialmente impulsionada pelas editoras comerciais e pelos autores independentes. Entre 2020 e 2021, por exemplo, o número total de ISBNs no Brasil cresceu 51,4%, com 58.668 registros a mais. As editoras comerciais responderam por 68% desse aumento, enquanto os autores independentes contribuíram com quase 13%.
A autopublicação ganhou espaço ao longo de todo o período. Os ISBNs solicitados pelos indies no Brasil passaram de 7.795, em 2019, para 43.643, em 2024. A participação desse segmento no total brasileiro saltou de 8% para 20%. As editoras comerciais também tiveram crescimento expressivo: os registros passaram de 64.097 para 122.077 no mesmo intervalo.
Para o Cerlalc, o fenômeno merece uma investigação mais aprofundada. O relatório considera insuficiente atribuir o aumento apenas a um eventual subregistro de novidades antes da mudança da agência de ISBN e aponta a necessidade de compreender quais outros fatores estão por trás da expansão.
Uma região em ritmos diferentes
O crescimento brasileiro contrasta com a diversidade de trajetórias observada nos demais mercados. O relatório define a América Latina como um “mosaico” de países que se movimentam em velocidades diferentes. Enquanto Brasil, República Dominicana, Equador e Bolívia apresentam tendências de crescimento, outros mercados registram estabilidade, volatilidade ou mesmo retração.
A pandemia de covid-19 aparece como um dos principais pontos de inflexão. Em 2020, países como Bolívia, Peru e Paraguai tiveram quedas superiores a 30% nos registros de ISBN. A recuperação, porém, ocorreu em ritmos distintos. O Equador, por exemplo, encerrou 2024 com crescimento de 35,5% em relação ao ano anterior. A Argentina, que atingiu seu pico em 2022, vem apresentando queda desde então.
Entre 2019 e 2024, a Venezuela registrou o maior crescimento percentual dos países analisados, de 111%. O resultado, no entanto, parte de uma base bastante baixa: foram 1.853 ISBNs em 2019 e 3.910 em 2024. Panamá, com crescimento de 87%, e República Dominicana, com 71%, também aparecem entre os destaques.
Quando os números são relacionados ao tamanho da população, o cenário muda. Portugal e Espanha lideram com 22 e 18,4 ISBNs por 10 mil habitantes, respectivamente. Uruguay aparece em seguida, com 9,4, enquanto Brasil registra 10,4. O estudo também identifica uma relação entre PIB per capita e quantidade de ISBNs por habitante, embora ressalte que correlação não significa causalidade.
O avanço da autopublicação
A expansão dos autores independentes não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Em países como Bolívia, Nicaragua, Honduras, Venezuela e Panamá, esse segmento representa entre cerca de um quarto e metade dos ISBNs registrados no período.
Na Bolívia, os indies responderam por 50,4% dos ISBNs solicitados entre 2019 e 2024. No Brasil, a participação média foi de 15,1%, mas o crescimento ao longo dos anos foi particularmente acelerado. Na Venezuela, as solicitações feitas por autores independentes cresceram mais de 150% apenas em 2024.
O relatório observa que o avanço da autopublicação é especialmente relevante em mercados nos quais a indústria editorial comercial tem menor participação. Ao mesmo tempo, o fenômeno também se consolida em mercados maiores, como Brasil, e apresenta crescimento em países como Costa Rica e Peru.
Digital avança, mas de maneira desigual
Outra tendência identificada pelo levantamento é a expansão da edição digital. Segundo o Cerlalc, a participação dos títulos digitais no conjunto da região chegou a cerca de 27% em 2024, ante 21% no início do período.
Cuba, Equador e Venezuela são os casos que mais chamam atenção. Em Cuba, os títulos digitais representaram 72,6% dos ISBNs registrados em 2024; no Equador, 55,9%; e na Venezuela, 45,5%. Em Cuba e Equador, portanto, os registros de títulos digitais já superaram os impressos.
No Brasil, os ISBNs de títulos digitais passaram de 33.244, em 2019, para 83.727, em 2024. O país terminou o período com 39,3% dos registros correspondentes a títulos digitais.
O crescimento, porém, está longe de ser uniforme. Enquanto Brasil, Colômbia e México apresentam trajetórias mais consistentes, Argentina, Chile e Espanha registraram oscilações ou quedas nos últimos anos. O relatório também faz uma ressalva importante: registrar um ISBN digital não significa necessariamente que o título tenha ampla circulação. PDF e EPUB, por exemplo, representam experiências editoriais distintas, assim como um livro disponibilizado em uma plataforma comercial e outro oferecido gratuitamente em um repositório institucional.
Para conferir o relatório, clique aqui.
Uma região em ritmos diferentes



