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Quando tudo é “revisão”, nada é revisão

16 fev 2026 | Blog, Mercado

Escopo, processo e valor no trabalho com texto são questões menos técnicas do que parecem.

Há uma queixa recorrente entre profissionais do texto: o mercado paga mal. A frase aparece em conversas informais, grupos de WhatsApp, redes sociais e em encontros presenciais, entre iniciantes e profissionais experientes.

Mas talvez a pergunta precise ser outra. Não é apenas quanto se paga, mas pelo quê se paga.

Um problema estrutural

O mercado editorial brasileiro é heterogêneo e, em muitos segmentos, pouco formalizado. Em editoras maiores, costuma haver uma divisão mais clara de funções; já em estruturas menores ou na autopublicação os papéis tendem a se misturar. O que deveria ser  preparação de texto, revisão ortográfica ou revisão de provas frequentemente é contratado sob um único rótulo: “revisão”.

Essa simplificação tem consequências. Quando tudo vira revisão, o escopo fica impreciso, o tempo de trabalho aumenta e, principalmente, o valor contratado deixa de corresponder ao esforço real. E isso não é causado por incompetência generalizada — nem do lado de quem contrata, nem do lado de quem executa. Trata-se, muitas vezes, de ausência de delimitação.

Quando o profissional trabalha além do combinado

Há um exemplo clássico desse tipo de situação: um profissional contratado para fazer uma revisão ortográfica, mas encontra trechos mal organizados, lacunas de informação ou falhas de progressão lógica. Tecnicamente isso caberia ao preparador de originais. Mas, na prática, o profissional contratado para revisar “resolve” — porque sabe fazer, porque quer entregar qualidade e porque entende que deixar o problema passar comprometeria o livro como um todo. Ao final do processo, porém, ele realizou intervenções que pertencem a etapas distintas — e recebeu por uma única delas.

A confusão afeta a precificação

Quando o escopo não está claramente definido, todos operam em terreno nebuloso. O profissional tem dificuldade de estimar tempo e justificar o valor; o contratante não sabe exatamente o que está contratando e o processo editorial fica sujeito a retrabalhos e desalinhamentos.  A consequência mais visível é a disputa por preço, mas a raiz do problema costuma estar na definição do serviço. Em outras palavras, não é que o mercado “pague mal”, por definição; mas é que falta uma definição do próprio serviço.

Profissionalização começa na definição

Profissionalização, nesse contexto, não começa necessariamente por “cobrar mais”, mas por nomear com precisão aquilo que se faz. Diferenciar leitura crítica de preparação, distinguir preparação de revisão de provas, explicitar limites de intervenção e formalizar essas distinções em propostas e contratos são passos que reorganizam a cadeia editorial.

Quando o profissional domina o processo como um todo, ele consegue estimar prazos com maior segurança, negociar com base técnica e estabelecer fronteiras claras para o próprio trabalho. Claro que isso não elimina as dificuldades do mercado, mas muda a posição de quem atua nele. Em vez de apenas reclamar de valores, passa-se a cobrar com base em parâmetros como complexidade e responsabilidade técnica.

Checklist prático: você sabe delimitar seu escopo?

Se você trabalha com texto, talvez valha a pena revisar alguns pontos básicos:

  • Seus orçamentos especificam claramente o tipo de intervenção oferecida (leitura crítica, preparação de originais, revisão ortográfica, revisão de provas)?
  • Você consegue identificar, durante o trabalho, quando uma demanda extrapola o escopo contratado?
  • Sabe estimar tempo de acordo com o tipo de serviço contratado e o nível de intervenção exigido?
  • Já se viu executando tarefas que pertencem a outra etapa, sem que isso estivesse previsto?
  • Você já recusou tarefas fora do escopo contratado?

Responder a essas perguntas com honestidade pode revelar que o problema não é simplesmente “o mercado paga mal”, mas que muitas vezes estamos operando sem delimitação suficiente do que fazemos. E, sem delimitação, não há como sustentar valor.

Para aprofundar

Um revisor editorial não precisa somente fazer um bom trabalho, mas entender todo o processo, delimitar função e assumir responsabilidade técnica sobre aquilo que lhe foi contratado.

Se você quer compreender com profundidade como essas etapas se articulam no fluxo editorial, vale conhecer os seguintes cursos:

Revisão, edição de textos

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