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Brasileiros compartilham experiências e oportunidades na Conferência de Editores de Sharjah

4 nov 2026 | Blog, Feiras de Livros e Eventos

  • Por Talita Facchini

Fazer a literatura circular entre países exige mais do que apresentar um catálogo. É preciso conhecer outros mercados, entender seus interesses e construir relações que nem sempre começam em uma negociação de direitos. Na Conferência de Editores de Sharjah, essa aproximação ganha espaço em diversos momentos – nas reuniões agendadas, nas mesas redondas, nos almoços e nas conversas que continuam nos intervalos.

A relação entre o Brasil e o emirado já dura décadas. Em 2018, Sharjah foi o convidado de honra da Bienal Internacional do Livro de São Paulo com uma delegação de mais de 150 representantes e mais de 40 obras de autores árabes traduzidas pela primeira vez para o português. Antes disso, sua conferência de editores também já investia em atrair profissionais de diferentes países para comprar e vender direitos e conhecer a produção editorial da região.

A publisher brasileira Laura di Pietro, fundadora da Tabla, acompanha essa trajetória desde 2011. À frente de uma editora dedicada às culturas do Oriente Médio, da Ásia Ocidental e do Norte da África, ela considera Sharjah o compromisso mais importante de seu calendário profissional. “Pra mim é muito interessante essa diversidade que você tem do lado de cá. Além disso, a participação do Sul Global, eu acho que é o forte dessa feira”, destacou.

A presença de editoras de países africanos e asiáticos amplia as possibilidades de encontro para além dos circuitos mais habituais de negociação. Para Laura, a diversidade vem acompanhada de uma programação cada vez mais focada nas necessidades do setor. Nesta edição, o resultado também apareceu na agenda de negócios: a editora saiu com autores selecionados e negociações encaminhadas para a etapa de contratos.

Relações que continuam depois da feira

Para a Tabla, um dos principais marcos dessa aproximação foi a conquista do Prêmio Turjuman, em 2021. O reconhecimento teve efeito direto na estrutura da editora, que estava construindo seu catálogo: os recursos permitiram contratar profissionais e avançar com as publicações. Mas, cinco anos depois, Laura ressalta que os resultados ultrapassaram o apoio financeiro e continuam presentes no relacionamento com editoras de outros países.

“A editora ganhou um prestígio, não só em Sharjah, mas entre os editores do mundo árabe, da Turquia e do Irã também”, explicou. Essa visibilidade se traduz em interesse pelo trabalho da Tabla: segundo ela, a abertura do agendamento da conferência chega a render cerca de 70 pedidos de reunião. O prêmio facilitou o acesso, enquanto a participação frequente consolidou os vínculos. “Aqui funciona muito assim – e eu gosto muito disso – essa relação que é muito presencial e de confiança.”

A continuidade também orienta a atuação do Brazilian Publishers, projeto de internacionalização da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Apex, representados no evento nos últimos anos por Ana Claudia Cleto Paiva. Além de acompanhar as editoras brasileiras, o trabalho envolve apresentar o mercado nacional, explicar as iniciativas disponíveis e mostrar como profissionais estrangeiros podem participar delas. Estar em Sharjah permite contextualizar oportunidades que nem sempre são conhecidas por quem está do outro lado da mesa.

Um dos exemplos é a Jornada Profissional realizada no Brasil. A divulgação presencial ajuda a explicar seu funcionamento e o programa de fellowship, que oferece apoio à participação internacional. Segundo a Ana Claudia, esse trabalho tem contribuído para ampliar o interesse de instituições de países árabes, com aumento da procura e das inscrições. A aproximação também se reflete na presença desses profissionais na Bienal e nos estandes brasileiros em outras feiras.

Toda conversa é uma oportunidade de negócio

As possibilidades de aproximação também estão no formato da programação. No primeiro dia, os participantes escolhem entre mesas redondas sobre diferentes temas e circulam por quatro rodadas de discussão. Em grupos menores, podem fazer perguntas, compartilhar experiências e conhecer profissionais com desafios semelhantes. Para Laura, essa foi uma das mudanças mais interessantes das últimas edições. “Você pode escolher o assunto que te interessa e sentar numa mesa, dessa forma bem flexível. Eu gosto bastante desse formato”, afirmou.

Nesta edição, André Calgaro, CEO da Narratix, foi o primeiro brasileiro a conduzir uma dessas mesas. Em sua estreia no evento, apresentou um panorama da produção de audiolivros e encontrou participantes interessados em orientações práticas para mercados em diferentes estágios de desenvolvimento. “A feira é muito diferente de todas as outras que eu já participei, por conta da sua dinâmica e, obviamente, a localidade também influencia”, comentou. No geral, Calgaro considerou a feira produtiva – tanto em relação às conversas – pensando em possibilidades de negócios, de parceria, quanto fortalecimento institucional de networking. “Toda feira proporciona essa possibilidade, mas essa aqui também gerou encontros fora das mesas de negociação, inclusive algumas coisas, algumas oportunidades e novidades, eu fiquei sabendo fora das mesas oficiais”, contou.

A diversidade das conversas também trouxe outras referências para pensar o áudio. Além das comparações frequentes com os EUA e a Europa, Calgaro teve contato com profissionais de países onde o mercado editorial ainda está a alguns passos atrás, com desafios econômicos e linguísticos próprios. “Com pessoas vindas de tantos lugares diferentes, a gente começa a ter uma perspectiva aumentada e pensar além do Brasil”, apontou.

Na avaliação de Ana Claudia, as mesas também ajudam a identificar possíveis parceiros que não haviam sido encontrados na plataforma de agendamento fornecida pelo evento, transformando uma conversa sobre determinado tema em uma reunião nos dias seguintes.

Uma oportunidade para ampliar conexões

Para quem está começando no mercado editorial e já deseja construir conexões internacionais, essa combinação merece atenção. A participação pode proporcionar contato com diferentes modelos de negócio e acesso a profissionais experientes, enquanto o apoio oferecido por programas de fellowship, sujeito à seleção, pode ajudar a viabilizar a viagem. O aproveitamento passa tanto pela preparação de uma agenda quanto pela disposição para ouvir e conversar.

Calgaro destaca justamente a facilidade de circular entre pequenos editores e dirigentes de grandes empresas. A plataforma de reuniões e os espaços compartilhados favorecem contatos que, em outros ambientes, podem depender de intermediários. “Você consegue acessar um presidente de uma grande empresa – como a Penguin Random House, por exemplo -, e editores de vários portes, de várias origens”, destacou. E resumiu, com uma imagem dos intervalos, que confirma o caráter democrático do evento: “Está todo mundo junto ali esperando o café. Ninguém está em um estande suntuoso em que você precisa marcar horário e perguntar se pode conversar. Está todo mundo ali, aberto para uma conversa e em um clima amigável”.

Como participar

Editores, agentes literários e outros profissionais do setor, especialmente os envolvidos com tradução e negociação de direitos, podem acompanhar a abertura das inscrições pelo site da Publishers Conference, onde a candidatura é feita on-line. Há possibilidade de receber um pacote de hospitalidade, sujeito à seleção e às condições oferecidas pela organização, que pode ajudar a viabilizar a viagem. Os interessados devem confirmar quais despesas estão cobertas, como passagens e hospedagem, ao se candidatar. Os prazos da próxima edição ainda serão divulgados.

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