Se você trabalha com livros e, em algum momento, já se viu editando, revisando, diagramando, resolvendo legendas, ajustando arquivo ou explicando processos para alguém que não estava ali, este texto provavelmente é sobre você.
No mercado editorial, atuar em mais de uma área não é exceção. É rotina. Às vezes por escolha, mas muitas vezes por necessidade.
Em alguns casos, isso acontece porque a estrutura da editora é mínima. Em outros, porque o processo não está bem definido. Em ambos, surge aquela sensação conhecida de estar mantendo vários pratos girando ao mesmo tempo — torcendo para que nenhum caia.
Quando quase tudo passa pela mesma pessoa
Editoras pequenas, produção editorial para autores independentes, prestação de serviços como MEI ou projetos autorais costumam acumular várias funções em uma pessoa só. Nesse contexto também se encaixa a figura da EUditora: uma editora mais ou menos formalizada, mas composta de uma pessoa só. Sem funcionários fixos, essa pessoa faz tudo o que conseguir fazer sozinha, incluindo o acompanhamento de fornecedores e parceiros terceirizados.
Nesse cenário, fazer “mais de uma coisa” não é ambição. É estrutura.
Aqui, o ponto central não é a multiplicidade de funções, mas a necessidade de distinguir papéis, momentos e critérios — mesmo quando tudo passa pela mesma pessoa. Sem isso, o trabalho vira uma sequência contínua de ajustes difíceis de revisar depois, inclusive por quem os fez.
A atuação fora do escopo
Há um segundo perfil muito comum: profissionais que acabam atuando fora do que foi originalmente contratado — por falta de organização estrutural da empresa, por prazos curtos, ou boa intenção do funcionário em evitar que o projeto emperre.
É o caso do revisor que aplica as próprias correções no InDesign, do designer que escreve legenda ou reorganiza texto, ou do editor que revisa, diagrama, confere imagem e fecha tudo.
O desgaste aparece quando essas ações acontecem sem conversa clara, sem delimitação e sem retorno ao processo. A partir daí, podem surgir confusões de responsabilidade, decisões sem mediação técnica adequada, cansaço da equipe e perda de qualidade.
Atuar fora do escopo pode ser necessário em situações pontuais, mas tornar isso invisível e recorrente costuma indicar falha de organização na editora.
Manter vários pratos no ar exige mais critério, não menos
Quando alguém transita entre áreas, o risco maior é não deixar claro quem fez o que, por que, como e quais as limitações dessa pessoa ao executar uma função que não compete a ela. Algumas práticas ajudam a manter o trabalho organizado, mesmo em estruturas enxutas:
- explicitar quando uma intervenção é provisória;
- registrar decisões que impactam etapas seguintes;
- alinhar o que precisa de validação técnica posterior;
- evitar que soluções emergenciais virem padrão.
Esses cuidados evitam que tudo se resolva no improviso, apenas por cansaço ou urgência.
Quando sair da sua área vira aprendizado
Apesar dos riscos, atuar pontualmente em outra etapa pode ampliar repertório. Muita gente passa a entender melhor o impacto do texto no projeto gráfico, as limitações técnicas da diagramação ou as decisões invisíveis da gestão editorial justamente nesses momentos.
Isso não significa que todo mundo deva fazer tudo. Significa que compreender o processo como um todo pode melhorar o trabalho de toda a equipe. No campo individual, pode até ajudar um profissional a decidir pela mudança em sua área de atuação no mercado.
Para quem se reconhece nesse lugar híbrido
- Se você atua em mais de uma área, talvez já tenha sentido que:
- trabalha muito, mas nem sempre consegue avaliar o resultado;
- resolve problemas que não deveriam ter chegado até você;
- aprende fazendo, mas sem tempo de organizar o que aprendeu depois.
Nesses casos, entender melhor como cada etapa funciona e onde começam seus limites técnicos ajuda a transformar acúmulo de funções em método — mesmo quando a estrutura é pequena.
Alguns textos que podem ajudar nessa organização:
Revisão e preparação de originais: funções diferentes, impactos distintos no processo editorial
Projeto gráfico, diagramação e capa: decisões diferentes, responsabilidades diferentes
Gestão editorial: método, controle e responsabilidade compartilhada
Atuar em mais de uma área pode ser ponto de partida. A diferença está em conseguir fazer isso com critério, clareza e comunicação — mesmo quando a realidade obriga a girar mais de um prato ao mesmo tempo.



